MEU ROMANCE

MEU ROMANCE
O DIA QUE NGOLA DESCOBRIU PORTUGAL

ESCRITOR & PROFESSOR


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O HOMEM DA TIPOLOGIA

Autor: João Portelinha


Concedo-me o direito a um excurso. Conheci o escritor Juarez Moreira Filho como professor universitário na Ulbra em 1998 (lamento não saber agora precisar o dia e a hora, mas não guardo, como outros mais metódicos, datas célebres em blocos de notas sempre disponíveis): um rosto aberto, sempre com barba bem feita, o cabelo impecavelmente cortado, a construção sólida, a indumentária sem quaisquer alardes, certa.  E eu que o imaginava um desses intelectuais de longos cabelos, desleixado, emblemático (sem ofensa)!
Do nosso convívio posterior surgiu uma confirmação dessa primeira empírica impressão: alguém perfeitamente seguro de si, alguém determinado a realizar as suas opções, alguém senhor de uma pertinácia que parecia extinta na extirpe. Uma visita a sua casa confirmará tudo: não me lembro de lá ter entrado (e muitas foram às vezes) sem que, contudo estivesse no seu exato lugar, no cumprimento estrito das suas funções com divisórias claramente definidas... O escritório numa arrumação de fazer inveja, sem nenhum objeto deslocado!  Uma biblioteca repleta de livros, alguns raros, que certamente competiria com vantagem com qualquer biblioteca pública da nossa urbe. Esse caráter metódico, rigoroso em extremo de toda sua vida (doméstica ou publica) é a pedra de toque do seu trabalho de escritor, documentado brilhantemente nas páginas dos seus abundantes e premiados livros - a segunda edição deste livro de contos, Tipos de Rua, lançada no 6º Salão do Livro, Palmas, Capital do Tocantins, se esgotou rapidamente, foi um sucesso de venda, aliás, como são todas suas obras e indicado para o Vestibular 2011, da Universidade Federal do Tocantins.  Mas não se pense que esse gosto de rigor e método que a si próprio impõe, leva o escritor tocantinense a cercear a liberdade de criação, o golpe de asa inventivo. Nada disso. O que caracteriza os seus escritos é justamente o equilíbrio entre a investigação praticada com a seriedade acadêmica e a originalidade dos enfoques, o compromisso com uma visão pessoalíssima dos objetos que trata.  JUAREZ MOREIRA FILHO é de fato um contista nato, moderno, usa a linguagem que lhe convém, a regionalista. Tratando-se de um escritor regionalista não poderia ser diferente! Seus contos são curtos, precisos, concisos, usando com desenvoltura de mestre do regionalismo o elemento surpresa que, aliás, enche a obra com emotividade, graça, beleza, sentimento, tristeza e nostalgia.  A linguagem usada pelo contista é bem moderna, direta, cheia de objetividade e precisão, dando uma unidade de impressão aos seus contos, uma densidade de fazer inveja aos melhores contistas brasileiros.
Nesta linha, TIPOS DE RUA é uma obra caracterizada pela espontaneidade emotiva, amorosa e vibrátil, um estilo todo tecido de imagens que fulguram, vida intensa e ofuscante, cheia de luminosidade que nos vislumbra, tudo escrito com leveza e graça entusiasmante. Seu estilo é artisticamente formado, transparente, fácil e claro, contudo rica de significação. Seus contos, a bem da verdade, são bastante realistas, pessoais e plasticamente expressivos. As pessoas aqui retratadas têm sentimentos resguardados por excesso de timidez ou extravagâncias. No decorrer desta obra, o autor se compraz em descobrir a beleza da natureza humana que se movimenta no quadro assim formado com destinos diversos dos seus personagens e fatos pitorescos através das recordações dos tempos vividos em Dueré, sua querida terrinha, onde o autor passou sua infância e adolescência e cujo cenário se desenrola os acontecimentos descritos na sua narração Em todas as cidades vamos encontrar pessoas que desprovidas da sorte, humildes, por serem portadores de algumas deficiências, pelo seu comportamento, por possuírem traços considerados exóticos ou pela sua postura, tiveram e têm seus nomes ligados à história de uma cidade ou de um lugarejo como de Duaré. Geralmente esses tipos de rua, como o Bacana, João da Rua, o Fogosinho, Ligeirinho, Maria louca, Chico da Pratinha, o Zé Preá, Zé Calundu, O Jóia, Maria Madalena, entre outros, vivem, como tantas outras, a mercê da solidariedade de pessoas bondosas e caridosas. Dormem pelas sarjetas e ficam na rua ser ter o que comer. Passam por necessidades extremas e como se diz no popular “vivem com a casa nas costas”. Perambulam assim pelas cidades e vez ou outra fazem sua morada debaixo de pontes, beira de rios e becos, praças e em frente das igrejas...  Esses lugares são recantos preferidos, destes personagens tornados verdadeiros heróis e figuras principais destes maravilhosos contos do JUAREZ, que perambulam pelas cidades geralmente vitimas de chacotas, de desprezo, gozações e até compaixão... No entanto, e aqui reside o lado interessante da narração, alguns personagens, como Sô Bacana, por exemplo, não são assim “tão vitimas” do meio social em que viviam, eles também “aprontam”... Era aquele que desfilava pelas ruas de Duerê, como se fosse dono da cidade... Mandando em tudo ali... Dando palpites... Ditando ordens que não eram cumpridas. Mas mesmo assim ele continuava dando ordens, que eram, iguais a riscos na água, João da Rua era pobretão, mas um tipo de corajoso, aguerrido, e explosivo, ambos certamente expressões de uma dolorosa tragédia humana, que bem nos retrata o autor, mostrando-nos a outra face da moeda.  É verdade que, para, além disso, o autor como narrador onisciente, descreve-nos, também, a realidade regional com tanta precisão que nos oferece com precisão a fisionomia da sua cidade.
Infelizmente, muitas cidades brasileiras já sepultaram seus tipos de rua há muitos anos!  Quando uma cidade sepulta no anonimato os seus tipos de rua, é sinal de que o humanismo desapareceu das esquinas e o tempo/relógio passou a controlar a vida dos seus habitantes. Felizmente “eles ainda existem – e são palpáveis – nas pequenas cidades, nas vilas e nos vilarejos, nas cidades grandes, nas metrópoles, mas aí ficam invisíveis, ignorados, diluindo-se, de dia, no burburinho das multidões e, à noite como a lua e as estrelas -, ofuscando-se sob o clarão dos refletores, das lâmpadas incandescentes e dos anúncios luminosos”, como bem nos explica a escritora Ney Alves de Oliveira que prefaciou muito bem a obra em pauta na sua 3ª Edição.
         De resto, todos nós nos lembramos de certas figuras pitorescas dos lugares onde vivemos. Se me perguntarem qual o personagem mais castiço de rua que eu conheço, certamente eu apontaria um, o Mestre Damoda, que me marcou a infância, em Luanda e que é era a “cara” do Sô Bacana, digamos um “Bacana angolano”.  Como esquecer a imagem daquela criatura metida a sebo, elegantemente vestido, de paletó e tudo, dando ordens, fazendo discursos ininteligíveis, como Sô Bacana, na porta do CINE TIVOLI, em Luanda?   Quando o povo aplaudia, mais ele se empolgava. O seu discurso começava assim... Camaradas quem é que é bom nos discursos? E todo mundo dizia, em uníssono, que era ele, o mestre Damoda!  Sabem que o nosso país não esta bom? E todos diziam que sabiam que sim, que não andava bem o país... E ele explicava as razões... É por causa do “espirronismo da crítica-crítica” que afetou a nossa nação! Entenderam? E todos nós dizíamos que sim, sem entendermos patavina do que ele dizia.  Até hoje, depois de tantos anos, tenho uma foto com este ilustre e inesquecível personagem da história da minha cidade.  Isto é somente um pequeno exemplo, porque existem inúmeras figuras que engrossaram as fileiras de figuras pitorescas, folclóricas e populares da minha cidade e País que caíram no esquecimento por não termos um narrador onisciente como JUAREZ, que nos descreva, também, a nossa realidade regional, suas figuras pitorescas, folclóricas e populares com tanta precisão, a fisionomia de muitos lugarejos históricos angolanos, como nos oferece o autor nesta premiada obra escolhida para o Vestibular de 2011, da UFT, que com toda justiça soube prestigiar um dos melhores escritores do Estado, do Brasil e do espaço lusófono, do qual me orgulho também pertencer.  Obrigado meu amigo, por esta maravilha da nossa Literatura! 

           PREFÁCIO


        O descritivismo pictorial em OCO DO MUNDO


Autor: João Portelinha

        A regra é clara, normalmente, aquele que escreve um livro convida alguém tão ilustre ou mais ilustre para prefaciar seu trabalho. Mas o escritor e advogado JUAREZ MOREIRA FILHO preferiu ver seu livro prefaciado por alguém que não é tão ilustre como ele nem tão ilustre como os prefaciadores das edições anteriores. A minha sorte é que o valor da obra OCO DO MUNDO, fez esgotar rapidamente tais edições e com a sua reedição, a terceira, tenho oportunidade e a honra de prefaciar esta maravilha da nossa literatura!
         O livro terá certamente várias categorias de leitores; de um lado, os estudiosos do regionalismo brasileiro; de outro, os amantes da boa leitura. Atrevo-me a dizer que para uns e para outros a leitura desta obra será sumamente proveitosa.
         Um lugar à parte na obra do autor é ocupado pelo romance poderosamente estruturado e de um estilo sempre admirável. Numa apresentação tão sucinta como esta, não é possível pôr em relevo as múltiplas qualidades que o fazem, com toda justiça, ser admirado por uma multidão de fiéis leitores, pois sua vasta obra está em todas as livrarias da nossa capital, nas bancas de revistas e na própria Internet.  
         Entende-se por romance regionalista, aquele que põe o seu foco em determinada região do nosso imenso Brasil, visando retratá-la, de maneira mais superficial ou mais profunda, conforme o gosto de quem a escreve. Além disso, são sempre marcados por um “pequeno realismo”, como afirma o estudioso Nelson Wernek Sodré, que está preocupado em retratar minúcias da linguagem, dos costumes, do folclore e em valorizar o caráter grandioso da natureza brasileira, a flora e a fauna.  Embora todos estes requisitos sejam abundantes neste romance, Juarez vai mais longe, o OCO DO MUNDO, vilarejo aludido no livro, não é um lugar geograficamente localizável no mapa do país, por ser ficcional. No entanto, com o seu descritivismo pictorial bem trabalhado no romance, o autor remete-nos necessariamente para este vilarejo igual a tantos outros numa região geograficamente reconhecível - o norte de Goiás. E confirmando muito mais um compromisso com as tradições regionalistas desta região específica do que propriamente com a toponímia destes lugares com características comuns como Porto Nacional, Natividade, Paraná, Cristalândia, Dueré, que o autor conhece muito bem e, inclusive tendo morado nesta cidade, onde viveu a sua infância, em época uma região de exploração de cristal de rocha.
         Em seu romance devemos admirar as descrições do vilarejo OCO DO MUNDO, em cujo cenário se desenrolam grande parte dos acontecimentos; as ruas, os larguinho do povoado, os latidos dos cães vagabundos, os gatos “exodozados’, o Vai- Quem - Quer que movimentava a corretela, as corridas de jegues, os circos pobres, bem como a pintura das personagens que, em maior ou menor grau, estão em contato com o protagonista: os meninos, os palhaços, os tocadores de violas, as mocinhas querendo se perder, o folclore, a idiossincrasia do povo sertanejo, seus usos e costumes. Nos dramas, revela-se grande artista por uma concentração tão  intensa, que o leitor é arrastado pela ação, do começo ao fim. Qualquer aspecto retratado no livro, mesmo quando descreve os aspectos escusos da vida humana, como o filho “aloucado” de seu Ferreiro e Dona Fia, o Cego Frazão, ilustre violeiro, retrata-os com muita mestria, imprime às suas criações força surpreendente e fá-los figuras principais do seu romance. Cada um destes é representado como uma personalidade individualmente caracterizada, e em nenhum lugar se encontram tipos irreais, tipos inventados. Essas descrições, cuja veracidade ninguém poderá negar um instante sequer, fá-lo um grande pintor da realidade.
         A realidade regional no romance é onipresente. Trata das condições de vida de gente humilde. Suas descrições baseiam-se na mais aguda observação das circunstâncias e dos homens do sertão bruto, cheio de miséria e totalmente desprotegido pelo poder público.
   Quando absorvemos na leitura às condições de vida tão bem descrita pelo autor, temos necessidade de respirar profundamente e pensar nos meios de extinguir, um dia, semelhante miséria. O realismo das discrições faz-nos sonhar com novas e melhores condições de vida e desejar sua efetivação.
                  “Mudam os tempos e, com eles os homens”, afirma um dos nossos velhos provérbios. Com a modernização das técnicas agrícolas, o êxodo rural, o desenvolvimento das cidades e de uma literatura urbana, alguns chegam até a vaticinar o desaparecimento do regionalismo!  Que mude o que tiver que mudar, mutatis mutandis, que mude, por exemplo, a pobreza, o isolamento, a falta da atenção do poder público no sertão!
         No entanto, duma coisa acreditamos, se houver adeptos como Juarez Moreira Filho e Obras como OCO DO MUNDO, este tipo de literatura vai permanecer, contrapondo todas expectativas  pessimistas, pois, o que se vê aqui é o engrandecimento do regionalismo, na pena deste notável escritor, “em que o homem é a expressão maior de toda a criação literária”, como bem disse o grande escritor José Mendonça Teles.
          O romance OCO DO MUNDO trás em seu final um GLOSSÁRIO “de ternos e expressões regionais dicionarizados e não dicionarizados”, onde o escritor Juarez teve a louvável preocupação não só com os leitores em si, mas também com a pesquisa e o alunato. Portanto, uma visão de escritor, leitor, e concomitantemente de educador, uma vez que também é professor.
         Resta-nos apenas agradecer a este gênio da nossa literatura tão representativo, que pode ser considerado um dos melhores escritores regionalistas do Brasil, conhecido nacionalmente, mas essencialmente tocantinense, por nos ter brindado esta obra reeditada, que vem estampada, como sempre, com o estudo circunspecto e profundo da personalidade do povo sertanejo. 

                   OBRIGADO JUAREZ!          

                                                       
Palmas, 08-01-2010

            João Rodrigues Portelinha da Silva
          Presidente da Academia Palmense de Letras

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Diálogos para lá da morte...



        De onde venho e de onde vem o mundo em que vivo e do qual vivo?  Para onde vou e para onde vai tudo o que nos rodeia? Tais são as perguntas do homem, logo que se liberta da embrutecedora necessidade de ter de sustentar-se materialmente. Por que quero saber de onde venho e para onde vou, de onde vem e para onde vai tudo o que me rodeia, e que significa tudo isto? Porque quero saber se morrerei ou não definitivamente e porque desejo eu que a morte não seja um fim absoluto? Se não morro que será de mim? Se morro, já nada tem sentido... Este é o ponto de partida pessoal e aditivo de toda filosofia e de toda a religião é o sentimento trágico da vida! - Saramago, tu como ateu e comunista confesso, nunca escondestes teu desprezo  por mim, pela Bíblia e pela igreja. Não é verdade?  Escrevestes livros e ensaios com críticas ácidas à fé cristã, como o romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, no qual aludes a uma eventual relação minha com Maria Madalena, com quem, segundo tu, eu teria conhecido o amor da carne e nele me ter reconhecido homem! Como se não bastasse, em outro texto também escrevestes: “Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar”. – Saramago, não achas que é muito incomodativo que eu não exista?  Porque, assim penso, desapareceria com isso toda a possibilidade de os homens acharem valores num céu inteligível; já que precisamente os homens estariam agora num plano em que somente existiriam homens, sem mim...  Sabes que o teu colega Dostoievski, também escritor, escreveu: ‘se Deus não existe, tudo será permitido’. Com efeito, tudo é permitido se eu não existisse; fica o homem, por conseguinte, abandonado; já que não se encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue! – Deus! Achas que o homem tornou-se melhor acreditando na tua existência? Sabes muito bem que as religiões nunca te serviram e nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana e que em troca diziam que prometestes paraísos e constantemente nos ameaçavas com infernos...Em teu nome, Deus, é que os homens sem escrúpulos justificam tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel das coisas... Durante séculos, Deus, a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente os teus textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a vida!  Por isso é que eu sempre duvidei que existisses... Como podes ter criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do teu poder e da tua glória, enquanto os mortos se vão acumulando teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história?
         Algures na Índia, não sei bem em que lugar precisamente... Mas tu como vês tudo, sabes que não estou mentido...  Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes. Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um angolano que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. Era um guerrilheiro... Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras...  Nos Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, seqüestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalm, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em teu nome. E a escravidão de milhares de africanos?  Por isso é que eu sempre duvidei da tua existência e das religiões que diziam ser tuas... Eu somente denunciei as injustiças que faziam em teu nome...   Agora o que farás de mim, Deus?
         - Olha Saramago! Não sei... Fostes também advogado?
         - Apenas Serralheiro, Senhor.
         - Acho que te vou perdoar... Os teus argumentos são fortíssimos. A morte de qualquer homem me diminui, porque estou envolvido com toda a humanidade... Quero-te confessar uma coisa!  Eu também sou teu fã!  Gostei daquela parte do teu livro onde me fazes um homem... Agora, sobre minha relação com Madalena é uma blasfêmia!  Confesso-te que não houve nada demais...

In Palmensis Mirabilis de João Portelinha

DIÁLOGOS PARA LÁ DA MORTE...


  


 De onde venho e de onde vem o mundo em que vivo e do qual vivo?  Para onde vou e para onde vai tudo o que nos rodeia? Tais são as perguntas do homem, logo que se liberta da embrutecedora necessidade de ter de sustentar-se materialmente. Por que quero saber de onde venho e para onde vou, de onde vem e para onde vai tudo o que me rodeia, e que significa tudo isto? Porque quero saber se morrerei ou não definitivamente e porque desejo eu que a morte não seja um fim absoluto? Se não morro que será de mim? Se morro, já nada tem sentido... Este é o ponto de partida pessoal e aditivo de toda filosofia e de toda a religião é o sentimento trágico da vida! - Saramago, tu como ateu e comunista confesso, nunca escondestes teu desprezo  por mim, pela Bíblia e pela igreja. Não é verdade?  Escrevestes livros e ensaios com críticas ácidas à fé cristã, como o romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, no qual aludes a uma eventual relação minha com Maria Madalena, com quem, segundo tu, eu teria conhecido o amor da carne e nele me ter reconhecido homem! Como se não bastasse, em outro texto também escrevestes: “Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar”. – Saramago, não achas que é muito incomodativo que eu não exista?  Porque, assim penso, desapareceria com isso toda a possibilidade de os homens acharem valores num céu inteligível; já que precisamente os homens estariam agora num plano em que somente existiriam homens, sem mim...  Sabes que o teu colega Dostoievski, também escritor, escreveu: ‘se Deus não existe, tudo será permitido’. Com efeito, tudo é permitido se eu não existisse; fica o homem, por conseguinte, abandonado; já que não se encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue! – Deus! Achas que o homem tornou-se melhor acreditando na tua existência? Sabes muito bem que as religiões nunca te serviram e nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana e que em troca diziam que prometestes paraísos e constantemente nos ameaçavas com infernos...Em teu nome, Deus, é que os homens sem escrúpulos justificam tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel das coisas... Durante séculos, Deus, a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente os teus textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a vida!  Por isso é que eu sempre duvidei que existisses... Como podes ter criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do teu poder e da tua glória, enquanto os mortos se vão acumulando teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história?

         Algures na Índia, não sei bem em que lugar precisamente... Mas tu como vês tudo, sabes que não estou mentido...  Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes. Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um angolano que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. Era um guerrilheiro... Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras...  Nos Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, seqüestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalm, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em teu nome. E a escravidão de milhares de africanos?  Por isso é que eu sempre duvidei da tua existência e das religiões que diziam ser tuas... Eu somente denunciei as injustiças que faziam em teu nome...   Agora o que farás de mim, Deus?
         - Olha Saramago! Não sei... Fostes também advogado?
         - Apenas Serralheiro, Senhor.
         - Acho que te vou perdoar... Os teus argumentos são fortíssimos. A morte de qualquer homem me diminui, porque estou envolvido com toda a humanidade... Quero-te confessar uma coisa!  Eu também sou teu fã!  Gostei daquela parte do teu livro onde me fazes um homem... Agora, sobre minha relação com Madalena é uma blasfêmia!  Confesso-te que não houve nada demais...

In Palmensis Mirabilis de João Portelinha

SARAMAGO ESTAVA E NÃO ESTÁ...



                             SARAMAGO, “ESTAVA E JÁ NÃO ESTÁ”...


José de Sousa (a que o funcionário do Registro Civil acrescentou Saramago, seu apelido), apareceu por lapso do funcionário do registro civil "que estava bêbado", conta ele próprio em “As Pequenas Memórias”.      Nascido numa família humilde de camponeses de Azinhaga, vilarejo da província portuguesa do Ribatejo, em 16 de novembro de 1922, embora dos registros conste a data de 18, para os pais evitarem o pagamento de uma multa por declaração fora do prazo. Não pôde freqüentar uma universidade, começando a vida como serralheiro mecânico.
            Tinha três anos quando sua família emigrou para a capital, onde as penúrias rurais apenas se transformaram em penúrias urbanas. Assim, o futuro escritor formou-se na biblioteca pública de seu bairro enquanto trabalhava numa oficina, após abandonar a escola para ajudar a manter uma casa na qual já faltava seu irmão Francisco, dois anos mais velho que foi morto logo depois da mudança.
           
A história de Saramago antes da consagração global é triste e é um registro da luta tenaz para sair dos limites impostos pela pobreza da infância. Mas, por isso mesmo, o escritor sempre se lembrou das suas raízes em todos os momentos importantes da sua vida - e, sobretudo, quando, a partir de certa altura, ele e a obra começaram a ser alvo de prêmios, homenagens e honrarias; fazia questão de lembrar sempre o quanto elas seriam fundamentais nas opções do homem em que se tornou. Fê-lo, por exemplo, em março de 2007, quando foi nomeado doutor honoris causa pela Universidade Autônoma de Madrid, ao apresentar-se assim: "Nasci numa família de camponeses muito pobres e sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilômetros a nordeste de Lisboa”... Em ‘As pequenas memórias’ é o título que Saramago pôs no relato de uma infância que sempre teve um pé na aldeia de onde havia emigrado. Seu romance ‘Levantado do Chão’ (1980) conta as peripécias de varias gerações de camponeses do Alentejo. Não foi seu primeiro romance, mas aquele que representou sua primeira consagração depois que ‘Manual de Pintura e Caligrafia’ rompera em 1977 um silêncio de quase 30 anos. Eram os anos que havia passado desde a aparição de ‘Terra do Pecado’, sua verdadeira, ainda que de pouco sucesso, estréia como romancista. Nessas três décadas Saramago trabalhou como administrador, empregado de seguradora e de uma editora; havia se casado e divorciado de sua primeira esposa, publicado três livros de poemas, ingressado no Partido Comunista - clandestino durante a ditadura de Salazar- e, acima de tudo, se consagrado como jornalista.
            O seu livro “O envagelho segundo Jesus Cristo” (1991) suscitou uma grande polêmica por nele o autor tentar humanizar a figura de Cristo como Pasolini fez em seu filme. Depois de saber que seu nome tinha sido riscado, pelo Governo português, da lista de candidatos ao Prêmio Literário Europeu, auto-exilou-se...  Foi morar em Lanzarote, ilha vulcânica de terra preta, poucas árvores, muito mar... Um quase deserto silencioso e solarengo, onde o casal construiu a sua “A Casa”, nome colocado em azulejos no muro branco. "Resolvemos batizá-la assim, se calhar pela minha necessidade de espetar uma pequena bandeira portuguesa, foi a afirmação da minha origem", explicou o escritor em 1999.
            Em Lanzarote, ao lado da mulher que amava, e dos três cães vira-latas que entraram para a família - Pepe, Greta e Camões, o único que sobrevive e que tem este nome porque chegou precisamente no dia em que o escritor ganhou o Prêmio Camões - Saramago encontrou o seu lugar. "Como se este mar, estas paisagens me tivessem feito recuperar a antiga impressão de permanência (de lentidão pelo menos) que todos tivemos na infância, quando os dias e as estações pareciam não querer acabar. A cada momento, a razão diz-me que o tempo passa, e mais rápido agora do que nunca, mas, como fiz escrever na contracapa do livro [Cadernos de Lanzarote], conto os dias pelos dedos e encontro as mãos cheias. Este diário não é um sinal de guerra, mas de paz comigo mesmo.”            E comenta: "será Lanzarote, nesta altura da vida, a Azinhaga recuperada? Fazia questão de dizer, a cada entrevista, que, apesar da distância a sua pátria era ainda Portugal. Em 1998, após o Nobel, numa entrevista concedida a imprensa sueca afirmou: "Eu sou de onde sou. Sou de onde nasci, sou da língua que falo, sou da história que o meu país tem, sou das qualidades e dos defeitos que nós temos, sou dos sonhos e das ilusões que são nossos, ou foram ou vão ser. É daí que eu sou, é aí que eu pertenço. O que há na relação de Espanha comigo é uma grande generosidade. Eles receberam-me como se eu fosse um deles. A pátria é em Portugal, o lugar da raiz e da consciência. Mas eu tenho a sorte de ter uma espécie de país aumentado. Que se prolongou até esta ilha."
             É nesta amargura que é preciso procurar a explicação de seus azedumes em relação  a certas personalidades políticas e religiosas de seu país. Para aqueles que se mantinham em contacto com José Saramago, como eu, sabíamos que ele era de natureza ardente, sentia-se atormentado por tudo aquilo que, ao seu ver fosse tido como injustiça... No entanto, também sabíamos que ele, muitas vezes, fremia de alegria precisamente quando falava dos movimentos políticos de que ele fez parte em favor da liberdade, da democracia, da justiça social... Embora na polêmica, Saramago fosse extremamente contumaz! Como as alabardas de longas hastes usadas contra invasores de fortalezas na Idade Média, era cortante em suas críticas contra as instituições, fossem elas políticas ou religiosas. Mistura de lança e machado, a alabarda tanto servia para escalar muralhas como para “afundar as cabeças dos desafetos”. E Saramago fez isso nos livros e na vida!  Prova disso foi sua atuação no episódio em que o governo de Fidel Castro mandou executar, em 2003, três cubanos que sequestraram um barco e tentaram fugir para os EUA. Saramago condenou o regime castrista, dizendo que Cuba havia perdido a sua confiança e traído seus sonhos - o escritor era comunista e ateu -, mas, dois anos depois, voltou a elogiar Castro publicamente (Fidel e Raul mandaram coroas de flores no dia do seu funeral...) e condenar os EUA por sua "fisionomia fascista". Polêmico, ele provocou reações calorosas de Israel, em 2002, ao comparar o horror nazista no campo de Auschwitz à atuação dos militares israelenses na Cisjordânia, ocupada por Israel. No entanto, no dia da sua morte, o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura da Conferência Episcopal Portuguesa, padre José Tolentino, disse a um jornal luso que "a Igreja perde um crítico com o qual soube dialogar constantemente". Pode ser... Saramago estava sempre pronto a rever suas posições, mas nunca poupou críticas ao papa Bento XVI.
             Sua escalada social teve início pela literatura de outros autores. Autodidata, após publicar o primeiro romance, ‘Terra do Pecado’ (1947), começou a traduzir escritores como Tolstoi e Baudelaire, tendo sido influenciado especialmente pelo russo em sua defesa política dos menos favorecidos. A denúncia de injustiças sociais marcou até o fim sua carreira literária. "Não se trata de instruir, senão de educar", escreveu Saramago em seu livro recém-publicado, ‘Democracia e Universidade’, em que diz que a democracia está gravemente enferma e é preciso ensinar cidadania às crianças antes que seja tarde, justificando assim que os governos prestem mais atenção à educação primária do que à universitária. Seu livro ‘Caim’ (2009), reinvenção ácida do Antigo Testamento em que Deus aparece com letra minúscula entre vírgulas e mais vírgulas. Os protagonistas da história bíblica ganham novas personalidades no livro. A conclusão da história é pessimista: seríamos todos perversos caimitas, descendentes de um assassino de sangue ruim que, no epílogo, vocifera contra o Criador pedindo que o mate, o que não acontece. Eles continuam discutindo por toda a eternidade. Vem de ‘Memorial do Convento’ esse gosto pela alegoria que marcou tão profundamente a literatura de Saramago, agradando a seus leitores mais fiéis e desagradando a alguns críticos. Em ‘A Jangada de Pedra’ (1986), Portugal é a tal embarcação do título, vagando sem rumo pelo oceano. Em ‘Ensaio Sobre a Cegueira’ (1995), toda uma cidade fica cega às vésperas do fim do milênio, marcado pelo advento de uma espécie de mutação antropológica em que todos se curvam ao delírio consumista. Finalmente, em ‘A Viagem do Elefante’ (2008), um paquiderme nascido em Goa no século XVI é transportado pelos mares, chegando sujo, cansado e fedorento em terras portuguesas para cruzar a Espanha, a Itália e os Alpes até chegar a seu destino, a Áustria. A metáfora da experiência existencial humana aplicada ao elefante indiano era particularmente cara a Saramago no momento em que começou a escrever a história de A ‘Viagem do Elefante’. Foi exatamente há três anos que começaram seus problemas respiratórios e a epígrafe escolhida para o livro traduz sua pacificação com a morte: "Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam."
 Era conhecido por utilizar frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Os diálogos das personagens eram inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros: este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Muitas das suas frases (i.e. orações) ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais. Da mesma forma, muitos dos seus parágrafos ocupariam capítulos inteiros de outros autores. Apesar disso o seu estilo não torna a leitura mais difícil, os seus leitores habituam-se facilmente ao seu ritmo próprio. Para além do estilo rebuscado, algo barroco, de longos parágrafos, ele detestava ponto final!  Quem foi que colocou o ponto final em sua vida?  É uma noticia difícil de digerir... Saramago “estava e já não está”, como ele mesmo descreveu a morte. Que diremos agora? E a imortalidade de um gênio?  Só sei que nos sentimos mais sós, que ele nos fará muita falta...
João Portelinha, escritor

SARAMAGO ESTAVA E NÃO ESTÁ...



                     

José de Sousa (a que o funcionário do Registro Civil acrescentou Saramago, seu apelido), apareceu por lapso do funcionário do registro civil "que estava bêbado", conta ele próprio em “As Pequenas Memórias”.      Nascido numa família humilde de camponeses de Azinhaga, vilarejo da província portuguesa do Ribatejo, em 16 de novembro de 1922, embora dos registros conste a data de 18, para os pais evitarem o pagamento de uma multa por declaração fora do prazo. Não pôde freqüentar uma universidade, começando a vida como serralheiro mecânico.
            Tinha três anos quando sua família emigrou para a capital, onde as penúrias rurais apenas se transformaram em penúrias urbanas. Assim, o futuro escritor formou-se na biblioteca pública de seu bairro enquanto trabalhava numa oficina, após abandonar a escola para ajudar a manter uma casa na qual já faltava seu irmão Francisco, dois anos mais velho que foi morto logo depois da mudança.
           
A história de Saramago antes da consagração global é triste e é um registro da luta tenaz para sair dos limites impostos pela pobreza da infância. Mas, por isso mesmo, o escritor sempre se lembrou das suas raízes em todos os momentos importantes da sua vida - e, sobretudo, quando, a partir de certa altura, ele e a obra começaram a ser alvo de prêmios, homenagens e honrarias; fazia questão de lembrar sempre o quanto elas seriam fundamentais nas opções do homem em que se tornou. Fê-lo, por exemplo, em março de 2007, quando foi nomeado doutor honoris causa pela Universidade Autônoma de Madrid, ao apresentar-se assim: "Nasci numa família de camponeses muito pobres e sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilômetros a nordeste de Lisboa”... Em ‘As pequenas memórias’ é o título que Saramago pôs no relato de uma infância que sempre teve um pé na aldeia de onde havia emigrado. Seu romance ‘Levantado do Chão’ (1980) conta as peripécias de varias gerações de camponeses do Alentejo. Não foi seu primeiro romance, mas aquele que representou sua primeira consagração depois que ‘Manual de Pintura e Caligrafia’ rompera em 1977 um silêncio de quase 30 anos. Eram os anos que havia passado desde a aparição de ‘Terra do Pecado’, sua verdadeira, ainda que de pouco sucesso, estréia como romancista. Nessas três décadas Saramago trabalhou como administrador, empregado de seguradora e de uma editora; havia se casado e divorciado de sua primeira esposa, publicado três livros de poemas, ingressado no Partido Comunista - clandestino durante a ditadura de Salazar- e, acima de tudo, se consagrado como jornalista.
            O seu livro “O envagelho segundo Jesus Cristo” (1991) suscitou uma grande polêmica por nele o autor tentar humanizar a figura de Cristo como Pasolini fez em seu filme. Depois de saber que seu nome tinha sido riscado, pelo Governo português, da lista de candidatos ao Prêmio Literário Europeu, auto-exilou-se...  Foi morar em Lanzarote, ilha vulcânica de terra preta, poucas árvores, muito mar... Um quase deserto silencioso e solarengo, onde o casal construiu a sua “A Casa”, nome colocado em azulejos no muro branco. "Resolvemos batizá-la assim, se calhar pela minha necessidade de espetar uma pequena bandeira portuguesa, foi a afirmação da minha origem", explicou o escritor em 1999.
            Em Lanzarote, ao lado da mulher que amava, e dos três cães vira-latas que entraram para a família - Pepe, Greta e Camões, o único que sobrevive e que tem este nome porque chegou precisamente no dia em que o escritor ganhou o Prêmio Camões - Saramago encontrou o seu lugar. "Como se este mar, estas paisagens me tivessem feito recuperar a antiga impressão de permanência (de lentidão pelo menos) que todos tivemos na infância, quando os dias e as estações pareciam não querer acabar. A cada momento, a razão diz-me que o tempo passa, e mais rápido agora do que nunca, mas, como fiz escrever na contracapa do livro [Cadernos de Lanzarote], conto os dias pelos dedos e encontro as mãos cheias. Este diário não é um sinal de guerra, mas de paz comigo mesmo.”            E comenta: "será Lanzarote, nesta altura da vida, a Azinhaga recuperada? Fazia questão de dizer, a cada entrevista, que, apesar da distância a sua pátria era ainda Portugal. Em 1998, após o Nobel, numa entrevista concedida a imprensa sueca afirmou: "Eu sou de onde sou. Sou de onde nasci, sou da língua que falo, sou da história que o meu país tem, sou das qualidades e dos defeitos que nós temos, sou dos sonhos e das ilusões que são nossos, ou foram ou vão ser. É daí que eu sou, é aí que eu pertenço. O que há na relação de Espanha comigo é uma grande generosidade. Eles receberam-me como se eu fosse um deles. A pátria é em Portugal, o lugar da raiz e da consciência. Mas eu tenho a sorte de ter uma espécie de país aumentado. Que se prolongou até esta ilha."
             É nesta amargura que é preciso procurar a explicação de seus azedumes em relação  a certas personalidades políticas e religiosas de seu país. Para aqueles que se mantinham em contacto com José Saramago, como eu, sabíamos que ele era de natureza ardente, sentia-se atormentado por tudo aquilo que, ao seu ver fosse tido como injustiça... No entanto, também sabíamos que ele, muitas vezes, fremia de alegria precisamente quando falava dos movimentos políticos de que ele fez parte em favor da liberdade, da democracia, da justiça social... Embora na polêmica, Saramago fosse extremamente contumaz! Como as alabardas de longas hastes usadas contra invasores de fortalezas na Idade Média, era cortante em suas críticas contra as instituições, fossem elas políticas ou religiosas. Mistura de lança e machado, a alabarda tanto servia para escalar muralhas como para “afundar as cabeças dos desafetos”. E Saramago fez isso nos livros e na vida!  Prova disso foi sua atuação no episódio em que o governo de Fidel Castro mandou executar, em 2003, três cubanos que sequestraram um barco e tentaram fugir para os EUA. Saramago condenou o regime castrista, dizendo que Cuba havia perdido a sua confiança e traído seus sonhos - o escritor era comunista e ateu -, mas, dois anos depois, voltou a elogiar Castro publicamente (Fidel e Raul mandaram coroas de flores no dia do seu funeral...) e condenar os EUA por sua "fisionomia fascista". Polêmico, ele provocou reações calorosas de Israel, em 2002, ao comparar o horror nazista no campo de Auschwitz à atuação dos militares israelenses na Cisjordânia, ocupada por Israel. No entanto, no dia da sua morte, o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura da Conferência Episcopal Portuguesa, padre José Tolentino, disse a um jornal luso que "a Igreja perde um crítico com o qual soube dialogar constantemente". Pode ser... Saramago estava sempre pronto a rever suas posições, mas nunca poupou críticas ao papa Bento XVI.
             Sua escalada social teve início pela literatura de outros autores. Autodidata, após publicar o primeiro romance, ‘Terra do Pecado’ (1947), começou a traduzir escritores como Tolstoi e Baudelaire, tendo sido influenciado especialmente pelo russo em sua defesa política dos menos favorecidos. A denúncia de injustiças sociais marcou até o fim sua carreira literária. "Não se trata de instruir, senão de educar", escreveu Saramago em seu livro recém-publicado, ‘Democracia e Universidade’, em que diz que a democracia está gravemente enferma e é preciso ensinar cidadania às crianças antes que seja tarde, justificando assim que os governos prestem mais atenção à educação primária do que à universitária. Seu livro ‘Caim’ (2009), reinvenção ácida do Antigo Testamento em que Deus aparece com letra minúscula entre vírgulas e mais vírgulas. Os protagonistas da história bíblica ganham novas personalidades no livro. A conclusão da história é pessimista: seríamos todos perversos caimitas, descendentes de um assassino de sangue ruim que, no epílogo, vocifera contra o Criador pedindo que o mate, o que não acontece. Eles continuam discutindo por toda a eternidade. Vem de ‘Memorial do Convento’ esse gosto pela alegoria que marcou tão profundamente a literatura de Saramago, agradando a seus leitores mais fiéis e desagradando a alguns críticos. Em ‘A Jangada de Pedra’ (1986), Portugal é a tal embarcação do título, vagando sem rumo pelo oceano. Em ‘Ensaio Sobre a Cegueira’ (1995), toda uma cidade fica cega às vésperas do fim do milênio, marcado pelo advento de uma espécie de mutação antropológica em que todos se curvam ao delírio consumista. Finalmente, em ‘A Viagem do Elefante’ (2008), um paquiderme nascido em Goa no século XVI é transportado pelos mares, chegando sujo, cansado e fedorento em terras portuguesas para cruzar a Espanha, a Itália e os Alpes até chegar a seu destino, a Áustria. A metáfora da experiência existencial humana aplicada ao elefante indiano era particularmente cara a Saramago no momento em que começou a escrever a história de A ‘Viagem do Elefante’. Foi exatamente há três anos que começaram seus problemas respiratórios e a epígrafe escolhida para o livro traduz sua pacificação com a morte: "Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam."
 Era conhecido por utilizar frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Os diálogos das personagens eram inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros: este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Muitas das suas frases (i.e. orações) ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais. Da mesma forma, muitos dos seus parágrafos ocupariam capítulos inteiros de outros autores. Apesar disso o seu estilo não torna a leitura mais difícil, os seus leitores habituam-se facilmente ao seu ritmo próprio. Para além do estilo rebuscado, algo barroco, de longos parágrafos, ele detestava ponto final!  Quem foi que colocou o ponto final em sua vida?  É uma noticia difícil de digerir... Saramago “estava e já não está”, como ele mesmo descreveu a morte. Que diremos agora? E a imortalidade de um gênio?  Só sei que nos sentimos mais sós, que ele nos fará muita falta...

João Portelinha, escritor


segunda-feira, 21 de junho de 2010

SARAMAGO

Associo-me ao profundo pesar, a enorme mágoa pelo falecimento do amigo e escritor José Saramago – espresso as minhas sentidas condolências à Pilar Del Rio, companheira das suas vicissitudes e sua família.
            A morte de um dos maiores expoentes da literatura portuguesa constitui uma perda irreparável para Portugal, para o espaço lusófono e para o mundo. Sua dimensão intelectual, artística, humana e cívica faz dele uma figura maior da nossa história. O nosso sentimento, também é de enorme gratidão por tudo que fez em prol da Democracia, Justiça Social, Direitos Humanos e, sobretudo, da Língua Portuguesa, nossa língua, que tornou-se mais bela com suas imortais obras. Rendo assim o meu testemunho a um escritor que pela reputação mundial recebe milhares de merecidas homenagens e eu quero acrescentar, neste doloroso momento do seu passamento, as minhas homenagens a todas aquelas que sua pátria e o mundo lhe consagram merecidamente. Estou  de luto...
 JOÃO PORTELINHA

domingo, 20 de junho de 2010

A MORTE DE SARAMAGO

Associo-me ao profundo pesar, a enorme mágoa pelo falecimento do escritor José Saramago, meu grande amigo e camarada – espresso, ainda, as mais sentidas condolências à Pilar Del Rio, companheira das suas vicissitudes e sua família.
            A morte de um dos maiores expoentes da literatura portuguesa constitui uma perda irreparável para Portugal, para o espaço lusófono e para o mundo. Sua dimensão intelectual, artística, humana e cívica faz dele uma figura maior da nossa história. O nosso sentimento, também é de enorme gratidão por tudo que fez em prol da Democracia, Justiça Social, Direitos Humanos e, sobretudo, da Língua Portuguesa, nossa língua, que tornou-se mais bela com suas imortais obras. Rendo assim o meu testemunho a um escritor que pela reputação mundial recebe milhares de merecidas homenagens e eu quero acrescentar, neste doloroso momento do seu passamento, as minhas condolências a todas aquelas que sua pátria e o mundo lhe consagram merecidamente. Eu estou de luto...

 João Portelinha

quinta-feira, 10 de junho de 2010

                         Como uma bola de neve...


            Neste dia 5 de junho, dia internacional do do meio ambiente, é importante fazermos uma reflexão sobre todas as metas intensivas e excessivas de desenvolvimento, onde o Homo Economicus não leva em conta a preservação do meio ambiente, provocando um efeito comparável ao de uma bola de neve que despenca e rola desatinamente do topo das montanhas cobertas de neve: ninguém pode prever qual a trajetória, a velocidade e o destino dessa bola que mais se avoluma e maior velocidade atinge na sua irreversível, insolente e trágica evolução.
         Assim é a natureza, que não se defende, mas reage, e cuja reação pode ter os desdobramentos os mais imprevisíveis – e os mais trágicos. No entanto, a idéia do progresso passou como é óbvio, a ser adorada, idolatrada e reverenciada por bilhões de devotos que, apesar do seu entusiasmo e por não terem sabido conviver com a natureza-mãe, tornaram-se, na realidade, mais vítimas do que beneficiários do implacável e desumano progresso, que altera todo o equilíbrio biológico ou ecológico de todas as espécies dos reinos animal e vegetal, provocando centenas de males incuráveis que afetam a saúde humana e a toda espécie animal, em nome de um suposto bem à humanidade.
         Sou apologista de que se deva procurar insumos e metodologias alternativas que sejam viáveis dos pontos de vista econômico, ambiental e social. Isto é, onde toda exploração agrícola ou agropecuária convergisse numa harmonia econômico-ambiental, em que o social fosse também importante – ou mesmo o mais importante nesse quadro. É sabido atualmente que os impactos da agricultura sobre o meio ambiente chegam a situações extremas e quase de irreversibilidade da degradação e da poluição ambiental, causadas pelo uso inapropriado de insumos e mecanização, noviços a toda vida.
         Deléage insistia frequentemente, e com justa ração, em que a questão ambiental era eminentemente social. Forçoso é estar de acordo, até porque os princípios do ecodesenvolvimento afastam toda abordagem reducionista, seja ela ecologista, seja ela economista. Dever-se-á pautar toda formulação de políticas de desenvolvimento agrícola ou de quaisquer outras atividades exploradas da natureza por princípios que conclamem a primazia das necessidades premente de um desenvolvimento social baseado nesse casamento frutuoso do homem com a natureza, já mesmo em benefício da qualidade de vida dos próprios viventes atuais.
         Por outro lado, este dilema entre a dominação da natureza pelo homem ou a preservação do meio ambiente permanecerá enquanto continuar a ser concebido o uso do meio ambiente pelo prisma de um modelo de desenvolvimento unilateral e unívoco. Após a leitura de várias teorias e modelos de desenvolvimento agrícola, ocorreu-me que talvez valesse a pena pensar em algum que fosse mais diversificado, o que supõe, desde logo, optar por uma orientação teórica capaz de perceber a complexidade dialética dos objetos e situações envolvidas nessa relação do meio natural com o meio social, reaprendendo mesmo tal relação.
         Um tal reaprendizado será necessariamente perpassada por conflitos e envolverá adaptação de tecnologias já existentes, desenvolvimento de novos hábitos e novas tecnologias, pesquisas de produtos e geração de novos conhecimentos direcionados para a previsão e a prevenção dos impactos negativos da atividade agrícola
(e não só ela), quer incidam eles sobre o meio ambiente, quer sobre o meio social.
         Obviamente que sem prejuízo para a produção nem para a competitividade, que são pressupostos para a sobrevivência da espécie e perpetuação da humanidade. Sendo assim, a política econômica deve levar ao desenvolvimento e à adoção de tecnologias que promovam o desenvolvimento sustentável, competitivo, procurando preservar sempre e dentro do possível os recursos naturais para o uso das gerações futuras.

In Palmensis Mirabilis de João Portelinha

quarta-feira, 2 de junho de 2010

sábado, 29 de maio de 2010

O BRASIL ESTÁ BEM NO FILME...

         Por incrível que nos pareça, em estudo realizado com 80 países, o Brasil é o oitavo país no ranking de países de maior transparência na administração dos gastos públicos de acordo com relatório divulgado no ano passado pelo Internacional Budget Partners (IBP), instituto americano responsável por monitorar a transparência dos governos na divulgação de seus gastos. O IBP criou o Open Budget Index que vai de 0 a 100%. No ranking apresentado o governo federal brasileiro atingiu 74%, ficando a frente da Alemanha com 64%, Índia com 60% e Rússia. O “País da Copa” – África do Sul - classificado com 87%, surpreendentemente, é a segunda nação altamente transparente, depois do reino Unido, que fica em primeiro lugar com 88% !
         Contudo, avessos a esses avanços, alguns políticos da oposição – insuflados, é verdade, pela cega tendência de minimizar os progressos realizados pelo governo, principalmente num ano eleitoral, acham tudo isso muito pouco... Entretanto, é um grande avanço se tivermos em conta que o Brasil sai na frente da maioria dos demais países, inclusive nações do primeiro mundo, abrindo a todos cidadãos o acesso diário às informações sobre receitas arrecadas e as despesas realizadas pelos órgão públicos. Por outro lado, é um passo da maior importância para o Brasil na sua consolidação como uma das grandes democracias do mundo! O Governo do Lula esta de parabéns!
         Desde quinta-feira (27), já é possível, também, consultar no Portal da Transparência informações atualizadas diariamente sobre a execução das receitas dos governos federal, estaduais e municipais. Na realidade, o Portal da Transparência já tinha sido criado em 2004, mas, desde então, as informações eram atualizadas apenas mensalmente. Com a nova ferramenta, a lei obriga os entes federados a detalhar para a população informações sobre a execução orçamentária em tempo real. A regra vale para cidades com mais de cem mil habitantes. Os demais municípios terão até 2013 para se adequarem à regra. O Governo de Tocantins colocou no ar à meia noite de quarta-feira (26), o seu Portal de Transparência, cujos dados são extraídos do Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios – SIAFEM. Foi, também, liberado uma senha de acesso ao Sistema para os parlamentares...
         Pese o fato de este novo instrumento ser festejado e estar de acordo com um princípio primordial da administração pública, que é a da publicidade de suas ações, contudo, deverão ser implementadas controles mais rígidos para aqueles que se desviam do interesse público e que de resto, são medidas desejadas por todo cidadão brasileiro: sanções e punições para os administradores corruptos ou ímprobos! Aliás, elas já estão previstas no Código Penal desde os anos 40 (decreto-lei nº. 2.848 de 1940).  Prisão para os corruptos!



O BRASIL ESTÁ BEM NO FILME...

            

         Por incrível que nos pareça, em estudo realizado com 80 países, o Brasil é o oitavo país no ranking de países de maior transparência na administração dos gastos públicos de acordo com relatório divulgado no ano passado pelo Internacional Budget Partners (IBP), instituto americano responsável por monitorar a transparência dos governos na divulgação de seus gastos. O IBP criou o Open Budget Index que vai de 0 a 100%. No ranking apresentado o governo federal brasileiro atingiu 74%, ficando a frente da Alemanha com 64%, Índia com 60% e Rússia. O “País da Copa” – África do Sul - classificado com 87%, surpreendentemente, é a segunda nação altamente transparente, depois do reino Unido, que fica em primeiro lugar com 88% !
         Contudo, avessos a esses avanços, alguns políticos da oposição – insuflados, é verdade, pela cega tendência de minimizar os progressos realizados pelo governo, principalmente num ano eleitoral, acham tudo isso muito pouco... Entretanto, é um grande avanço se tivermos em conta que o Brasil sai na frente da maioria dos demais países, inclusive nações do primeiro mundo, abrindo a todos cidadãos o acesso diário às informações sobre receitas arrecadas e as despesas realizadas pelos órgão públicos. Por outro, é um passo da maior importância para o Brasil na sua consolidação como uma das grandes democracias do mundo! O Governo do Lula esta de parabéns!
         Desde quinta-feira (27), já é possível, também, consultar no Portal da Transparência informações atualizadas diariamente sobre a execução das receitas dos governos federal, estaduais e municipais. Na realidade, o Portal da Transparência já tinha sido criado em 2004, mas, desde então, as informações eram atualizadas apenas mensalmente. Com a nova ferramenta, a lei obriga os entes federados a detalhar para a população informações sobre a execução orçamentária em tempo real. A regra vale para cidades com mais de cem mil habitantes. Os demais municípios terão até 2013 para se adequarem à regra. O Governo de Tocantins colocou no ar à meia noite de quarta-feira (26), o seu Portal de Transparência, cujos dados são extraídos do Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios – SIAFEM. Foi, também, liberado uma senha de acesso ao Sistema para os parlamentares...
         Pese o fato de este novo instrumento ser festejado e estar de acordo com um princípio primordial da administração pública, que é a da publicidade de suas ações, contudo, deverão ser implementadas controles mais rígidos para aqueles que se desviam do interesse público e que de resto, são medidas desejadas por todo cidadão brasileiro: sanções e punições para os administradores corruptos ou ímprobos! Aliás, elas já estão previstas no Código Penal desde os anos 40 (decreto-lei nº. 2.848 de 1940).  Prisão para os corruptos!

In Palmensis Mirabilis  de João Portelinha



sexta-feira, 21 de maio de 2010

ANIVERSÁRIO DE PALMAS

       Aniversário de Palmas

Há exatos vinte e um anos, foi lançada a pedra fundamental de Palmas, que reuniu na Praça dos Gerassóis centenas de pessoas. Porém, somente no dia 1 de janeiro de 1990 é que Palmas assumiu sua função de capital do estado do Tocantins. As cidades têm sua própria personalidade, espírito autônomo, um caráter quase exteriorizado que corresponde à alegria, ao amor novo, à renúncia, à viuvez. Para mim tem significado de amor novo! Toda cidade é um estado de alma e basta demorar-se nela um pouco para que o estado de alma se comunique, nos propague num fluído que inocula e se incorpora com nuança do ar. Talvez por isso, quando um amigo nosso, mesmo sem termos muito contato anterior, sentimos imediatamente sua ausência. O maior poeta de Tocantins, Osmar Casagrande, também corrobora com essa tese. Aliás, eu é que corroboro com ele, porque a tese é dele!
         Jean Cocteau, diz-nos que para conhecer uma cidade, é imperioso vivermos nela três dias ou trinta anos. Ao final dos trinta anos, verifica-ser que o julgamento que fizemos sobre a mesma após os três dias é que era certo· Como estou mais de três dias e menos de trinta anos, poderei dar aqui o meu testemunho sobre a nossa linda capital. Geralmente, nestas ocasiões, pedem-me sempre uma entrevista ou qualquer coisa do gênero. No entanto, não sei por que cargas de água, desta vez a imprensa não me entrevistou! Eu não vou perder esta oportunidade histórica e por “vingança” vou me entrevistar:

JP – Por que mora em Palmas?

- Simplesmente porque amo Palmas... Sua gente, tranquilidade, paisagens belas, monumentos, arborização, o ambiente vegetativo da cidade, mulheres lindas, as chuvas... Que me desculpem os grandes poetas da nossa urbe porque é fácil ser poeta numa cidade assim!


JP – Chuvas?

Sim. A chuva é vida em Palmas, ao contrário das que desabam noutras paragens – onde arrastam, destroem, humilham e onde são recebidas com desconfiança pela população por tumultuar a vida, onde o habitante só de pensar que daí em meia hora pode quem sabe a bordo de uma canoa, com as suas tralhas, embusca de porto seguro, talvez na próxima esquina... Em Palmas é diferente, ela é alegria, é a esperança, fartura, é exuberância, é calma... É uma promessa de primavera – que toda gente adora. Ela começa de madrugada e nos inunda o coração, a existência se exalta, as tensões diminuem e o futuro dá uma piscadela marota prometendo amanhãs melhores para a cidade. Sabe o que é bom mesmo?

JP – Diga, por favor?

 É de manhã quando abrimos as janelas dos quartos e respiramos a gostosa lufada de ar puro e úmido enriquecidas pelo cheirinho da terra molhada que antes era seca, esturrecida pela estiagem. De repente como um milagre... As árvores da nossa capital ficam todas floridas. Os pássaros pulam de haste em haste nos pomares repletos de frutas, algumas do cerrado; mangabas, cajueiros, etc. Os jardins ficam perfumados, cujo florir sempre festejamos e é sempre um pretexto para a poesia, uma ocasião propícia  para os gênios da poesia como José Gomes e Osmar Casagrande! Em fim, morar em Palmas é um privilégio... 

JP – Mas José Gomes já morreu?

- Os poetas nunca morrem!

JP – Você diz que é um privilégio morar em Palmas, por quê?

 Ao mesmo tempo e por razões já bastante conhecidas, morar aqui é um privilégio: não há um nível elevado de violência, não há poluição, o transito é, de certa forma, civilizado, Muito verde, grandes avenidas, parques, quadras bem estruturadas, quadras de esportes os mais diversos, policiamento eficaz. Esta tranquilidade chega até a incomodar o nosso forasteiro acostumado à tensão urbana cotidiana. É um bom lugar para trabalhar e estudar... Palmas tornou-se uma cidade universitária! Com tudo isso, o resultado é uma paisagem urbana que termina por atender perfeitamente aos anseios de uma ecologia....

JP – Atender a uma ecologia empedernida que chega a dar urticária em um urbanoíde radical!

- Por que você diz isso?

 JP - Digo isso pela quantidade de espaços vazios por razões diversas, e servidas por um sistema de infra-estrutura urbana de primeiríssima qualidade choca algumas pessoas... E a questão da identidade de Palmas?
Para mim, é uma qualidade da cidade e não é defeito! Quando você fala em espaços vazios certamente se refere ao fato de haver espaços que não têm casas e têm árvores, plantas... Isso é uma qualidade da nossa cidade. No entanto, com isso temos um problema: a cidade é grande, com grandes espaços com uma infra-estrutura urbana de primeiríssima qualidade e pouca gente para pagar o IPTU. É por esta razão que o Prefeito tinha proposto o seu aumento... Viver numa cidade assim fica caro para o poder público. Alguns só não entenderam isso por questões eleitoreiras...
         Sobre a segunda questão da pergunta... Quase ninguém é de Palmas... Uma cidade de vinte e um anos de vida é suficientemente jovem para ter uma de identidade cultural própria. Ao mesmo tempo, essa “falta de identidade!” é por enquanto sua marca registrada. As pessoas que aqui chegam encontram moradores de todas as partes do país e até do estrangeiro... No entanto, já estamos tendo alguns lugares de diversão, ações culturais, lugares comuns e tudo isso acaba por formular um discurso homogêneo sobre a cidade, transformando numa marca própria. Entretanto, vinte e um anos já representam alguma coisa na vida das pessoas. Algumas gerações já nasceram e se criaram aqui. É daí, que certamente, nascerá à verdadeira identidade palmense. Palmas já nasce importante também por isso!
 
JP - Existe alguma relação com Brasília?

- Brasília nasceu mística. Há muito tempo profecias e visões envolvem a cidade, segundo sua história. Partindo de uma cidade que foi antevista e apontada... Cheia de energia, carregada de uma série de coisas... Uma providência divina a “terra prometida”, a ”a cidade profetizada”, “a civilização do terceiro Milênio”, “o Chakra do planeta”. Palmas não foi feita com base em nenhuma profecia ou alguma previsão mística!  Agora, existem algumas similitudes para além do fato de serem cidades planejadas! O Rio de Janeiro, então Capital e possuidora de uma cultura popular bastante diversificada e valorizada pela mídia, era síntese da identidade nacional. São Paulo, com seu poderio econômico, simbolizava a modernidade que o país procurava e procura, nas referências ditadas por padrões internacionais. Recife e Salvador, como espaços sínteses da regionalização e da diversificação cultural do país, apareciam como guardiães de uma certa autenticidade da nação. O Sul como “santuário” da raça branca desejada pelas elites... A Amazônia, vista como uma reserva, era um espaço desconhecido, defendida mais como uma questão de orgulho nacional. Brasília e Palmas rompem com esse status quo. As criações destas duas cidades e suas consolidações recolocam a questão do território nacional num outro patamar. As duas cidades criaram um espaço social original, onde à mistura de culturas regionais, determinam as características das vidas das duas cidades. A pesar de restritas no tempo, a história que nelas se constrói indica um processo de intensidade de riqueza e originalidade. À ausência de uma importante classe operaria industrial - responsável tradicional pelo crescimento original das grandes cidades – contrapõe-se uma cidade com classe operária inexpressiva, incapaz de definir uma cultura local própria. Em seu lugar, instaura-se um sector terciário, predominantemente moderno, com pouca margem para o tradicional... Com boas escolas, boas universidades, hospitais, bibliotecas, muitas ações culturais... Em vez de uma burguesia - tradicional ou oligárquica – ciosa de seus espaços de poder, tem-se uma burocracia, moderna em suas funções e na prática de gestão pública, com gestão participativa, escolas em tempo integral, etc. Nós já nascemos modernos e sem vícios da outras capitais!


                   João Portelinha

Presidente da Academia Palmense de Letras