MEU ROMANCE

MEU ROMANCE
O DIA QUE NGOLA DESCOBRIU PORTUGAL

ESCRITOR & PROFESSOR


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Diálogos para lá da morte...



        De onde venho e de onde vem o mundo em que vivo e do qual vivo?  Para onde vou e para onde vai tudo o que nos rodeia? Tais são as perguntas do homem, logo que se liberta da embrutecedora necessidade de ter de sustentar-se materialmente. Por que quero saber de onde venho e para onde vou, de onde vem e para onde vai tudo o que me rodeia, e que significa tudo isto? Porque quero saber se morrerei ou não definitivamente e porque desejo eu que a morte não seja um fim absoluto? Se não morro que será de mim? Se morro, já nada tem sentido... Este é o ponto de partida pessoal e aditivo de toda filosofia e de toda a religião é o sentimento trágico da vida! - Saramago, tu como ateu e comunista confesso, nunca escondestes teu desprezo  por mim, pela Bíblia e pela igreja. Não é verdade?  Escrevestes livros e ensaios com críticas ácidas à fé cristã, como o romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, no qual aludes a uma eventual relação minha com Maria Madalena, com quem, segundo tu, eu teria conhecido o amor da carne e nele me ter reconhecido homem! Como se não bastasse, em outro texto também escrevestes: “Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar”. – Saramago, não achas que é muito incomodativo que eu não exista?  Porque, assim penso, desapareceria com isso toda a possibilidade de os homens acharem valores num céu inteligível; já que precisamente os homens estariam agora num plano em que somente existiriam homens, sem mim...  Sabes que o teu colega Dostoievski, também escritor, escreveu: ‘se Deus não existe, tudo será permitido’. Com efeito, tudo é permitido se eu não existisse; fica o homem, por conseguinte, abandonado; já que não se encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue! – Deus! Achas que o homem tornou-se melhor acreditando na tua existência? Sabes muito bem que as religiões nunca te serviram e nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana e que em troca diziam que prometestes paraísos e constantemente nos ameaçavas com infernos...Em teu nome, Deus, é que os homens sem escrúpulos justificam tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel das coisas... Durante séculos, Deus, a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente os teus textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a vida!  Por isso é que eu sempre duvidei que existisses... Como podes ter criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do teu poder e da tua glória, enquanto os mortos se vão acumulando teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história?
         Algures na Índia, não sei bem em que lugar precisamente... Mas tu como vês tudo, sabes que não estou mentido...  Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes. Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um angolano que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. Era um guerrilheiro... Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras...  Nos Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, seqüestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalm, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em teu nome. E a escravidão de milhares de africanos?  Por isso é que eu sempre duvidei da tua existência e das religiões que diziam ser tuas... Eu somente denunciei as injustiças que faziam em teu nome...   Agora o que farás de mim, Deus?
         - Olha Saramago! Não sei... Fostes também advogado?
         - Apenas Serralheiro, Senhor.
         - Acho que te vou perdoar... Os teus argumentos são fortíssimos. A morte de qualquer homem me diminui, porque estou envolvido com toda a humanidade... Quero-te confessar uma coisa!  Eu também sou teu fã!  Gostei daquela parte do teu livro onde me fazes um homem... Agora, sobre minha relação com Madalena é uma blasfêmia!  Confesso-te que não houve nada demais...

In Palmensis Mirabilis de João Portelinha

DIÁLOGOS PARA LÁ DA MORTE...


  


 De onde venho e de onde vem o mundo em que vivo e do qual vivo?  Para onde vou e para onde vai tudo o que nos rodeia? Tais são as perguntas do homem, logo que se liberta da embrutecedora necessidade de ter de sustentar-se materialmente. Por que quero saber de onde venho e para onde vou, de onde vem e para onde vai tudo o que me rodeia, e que significa tudo isto? Porque quero saber se morrerei ou não definitivamente e porque desejo eu que a morte não seja um fim absoluto? Se não morro que será de mim? Se morro, já nada tem sentido... Este é o ponto de partida pessoal e aditivo de toda filosofia e de toda a religião é o sentimento trágico da vida! - Saramago, tu como ateu e comunista confesso, nunca escondestes teu desprezo  por mim, pela Bíblia e pela igreja. Não é verdade?  Escrevestes livros e ensaios com críticas ácidas à fé cristã, como o romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, no qual aludes a uma eventual relação minha com Maria Madalena, com quem, segundo tu, eu teria conhecido o amor da carne e nele me ter reconhecido homem! Como se não bastasse, em outro texto também escrevestes: “Deus não é mais que um nome, nada mais que um nome, o nome que, por medo de morrer, lhe pusemos um dia e que viria a travar-nos o passo para uma humanização real. Em troca prometeram-nos paraísos e ameaçaram-nos com infernos, tão falsos uns como os outros, insultos descarados a uma inteligência e a um sentido comum que tanto trabalho nos deram a criar”. – Saramago, não achas que é muito incomodativo que eu não exista?  Porque, assim penso, desapareceria com isso toda a possibilidade de os homens acharem valores num céu inteligível; já que precisamente os homens estariam agora num plano em que somente existiriam homens, sem mim...  Sabes que o teu colega Dostoievski, também escritor, escreveu: ‘se Deus não existe, tudo será permitido’. Com efeito, tudo é permitido se eu não existisse; fica o homem, por conseguinte, abandonado; já que não se encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue! – Deus! Achas que o homem tornou-se melhor acreditando na tua existência? Sabes muito bem que as religiões nunca te serviram e nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana e que em troca diziam que prometestes paraísos e constantemente nos ameaçavas com infernos...Em teu nome, Deus, é que os homens sem escrúpulos justificam tudo, principalmente o pior, principalmente o mais horrendo e cruel das coisas... Durante séculos, Deus, a Inquisição foi, ela também, como hoje os talebanes, uma organização terrorista que se dedicou a interpretar perversamente os teus textos sagrados que deveriam merecer o respeito de quem neles dizia crer, um monstruoso conúbio pactuado entre a religião e o Estado contra a liberdade de consciência e contra o mais humano dos direitos: o direito a vida!  Por isso é que eu sempre duvidei que existisses... Como podes ter criado um universo inteiro para colocar nele seres capazes de cometer os maiores crimes para logo virem justificar-se dizendo que são celebrações do teu poder e da tua glória, enquanto os mortos se vão acumulando teimam em cobrir de terror e sangue as páginas da história?

         Algures na Índia, não sei bem em que lugar precisamente... Mas tu como vês tudo, sabes que não estou mentido...  Uma fila de peças de artilharia em posição. Atado à boca de cada uma delas há um homem. No primeiro plano da fotografia um oficial britânico ergue a espada e vai dar ordem de fogo. Não dispomos de imagens do efeito dos disparos, mas até a mais obtusa das imaginações poderá "ver" cabeças e troncos dispersos pelo campo de tiro, restos sanguinolentos, vísceras, membros amputados. Os homens eram rebeldes. Algures em Angola. Dois soldados portugueses levantam pelos braços um angolano que talvez não esteja morto, outro soldado empunha um machete e prepara-se para lhe separar a cabeça do corpo. Esta é a primeira fotografia. Na segunda, desta vez há uma segunda fotografia, a cabeça já foi cortada, está espetada num pau, e os soldados riem. Era um guerrilheiro... Algures em Israel. Enquanto alguns soldados israelitas imobilizam um palestino, outro militar parte-lhe à martelada os ossos da mão direita. O palestino tinha atirado pedras...  Nos Estados Unidos da América do Norte, cidade de Nova York. Dois aviões comerciais norte-americanos, seqüestrados por terroristas relacionados com o integrismo islâmico, lançam-se contra as torres do World Trade Center e deitam-nas abaixo. Pelo mesmo processo um terceiro avião causa danos enormes no edifício do Pentágono, sede do poder bélico dos States. Os mortos, soterrados nos escombros, reduzidos a migalhas, volatilizados, contam-se por milhares. Em Nova York tudo pareceu irreal ao princípio, episódio repetido e sem novidade de mais uma catástrofe cinematográfica, realmente empolgante pelo grau de ilusão conseguido pelo engenheiro de efeitos especiais, mas limpo de estertores, de jorros de sangue, de carnes esmagadas, de ossos triturados, de merda. O horror, agachado como um animal imundo esperou que saíssemos da estupefação para nos saltar à garganta. O horror disse pela primeira vez "aqui estou" quando aquelas pessoas saltaram para o vazio como se tivessem acabado de escolher uma morte que fosse sua. Agora o horror aparecerá a cada instante ao remover-se uma pedra, um pedaço de parede, uma chapa de alumínio retorcida, e será uma cabeça irreconhecível, um braço, uma perna, um abdômen desfeito, um tórax espalmado. Mas até mesmo isto é repetitivo e monótono, de certo modo já conhecido pelas imagens que nos chegaram daquele Ruanda-de-um-milhão-de-mortos, daquele Vietnã cozido a napalm, daquelas execuções em estádios cheios de gente, daqueles linchamentos e espancamentos daqueles soldados iraquianos sepultados vivos debaixo de toneladas de areia, daquelas bombas atômicas que arrasaram e calcinaram Hiroshima e Nagasaki, daqueles crematórios nazistas a vomitar cinzas, daqueles caminhões a despejar cadáveres como se de lixo se tratasse. De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em teu nome. E a escravidão de milhares de africanos?  Por isso é que eu sempre duvidei da tua existência e das religiões que diziam ser tuas... Eu somente denunciei as injustiças que faziam em teu nome...   Agora o que farás de mim, Deus?
         - Olha Saramago! Não sei... Fostes também advogado?
         - Apenas Serralheiro, Senhor.
         - Acho que te vou perdoar... Os teus argumentos são fortíssimos. A morte de qualquer homem me diminui, porque estou envolvido com toda a humanidade... Quero-te confessar uma coisa!  Eu também sou teu fã!  Gostei daquela parte do teu livro onde me fazes um homem... Agora, sobre minha relação com Madalena é uma blasfêmia!  Confesso-te que não houve nada demais...

In Palmensis Mirabilis de João Portelinha

SARAMAGO ESTAVA E NÃO ESTÁ...



                             SARAMAGO, “ESTAVA E JÁ NÃO ESTÁ”...


José de Sousa (a que o funcionário do Registro Civil acrescentou Saramago, seu apelido), apareceu por lapso do funcionário do registro civil "que estava bêbado", conta ele próprio em “As Pequenas Memórias”.      Nascido numa família humilde de camponeses de Azinhaga, vilarejo da província portuguesa do Ribatejo, em 16 de novembro de 1922, embora dos registros conste a data de 18, para os pais evitarem o pagamento de uma multa por declaração fora do prazo. Não pôde freqüentar uma universidade, começando a vida como serralheiro mecânico.
            Tinha três anos quando sua família emigrou para a capital, onde as penúrias rurais apenas se transformaram em penúrias urbanas. Assim, o futuro escritor formou-se na biblioteca pública de seu bairro enquanto trabalhava numa oficina, após abandonar a escola para ajudar a manter uma casa na qual já faltava seu irmão Francisco, dois anos mais velho que foi morto logo depois da mudança.
           
A história de Saramago antes da consagração global é triste e é um registro da luta tenaz para sair dos limites impostos pela pobreza da infância. Mas, por isso mesmo, o escritor sempre se lembrou das suas raízes em todos os momentos importantes da sua vida - e, sobretudo, quando, a partir de certa altura, ele e a obra começaram a ser alvo de prêmios, homenagens e honrarias; fazia questão de lembrar sempre o quanto elas seriam fundamentais nas opções do homem em que se tornou. Fê-lo, por exemplo, em março de 2007, quando foi nomeado doutor honoris causa pela Universidade Autônoma de Madrid, ao apresentar-se assim: "Nasci numa família de camponeses muito pobres e sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilômetros a nordeste de Lisboa”... Em ‘As pequenas memórias’ é o título que Saramago pôs no relato de uma infância que sempre teve um pé na aldeia de onde havia emigrado. Seu romance ‘Levantado do Chão’ (1980) conta as peripécias de varias gerações de camponeses do Alentejo. Não foi seu primeiro romance, mas aquele que representou sua primeira consagração depois que ‘Manual de Pintura e Caligrafia’ rompera em 1977 um silêncio de quase 30 anos. Eram os anos que havia passado desde a aparição de ‘Terra do Pecado’, sua verdadeira, ainda que de pouco sucesso, estréia como romancista. Nessas três décadas Saramago trabalhou como administrador, empregado de seguradora e de uma editora; havia se casado e divorciado de sua primeira esposa, publicado três livros de poemas, ingressado no Partido Comunista - clandestino durante a ditadura de Salazar- e, acima de tudo, se consagrado como jornalista.
            O seu livro “O envagelho segundo Jesus Cristo” (1991) suscitou uma grande polêmica por nele o autor tentar humanizar a figura de Cristo como Pasolini fez em seu filme. Depois de saber que seu nome tinha sido riscado, pelo Governo português, da lista de candidatos ao Prêmio Literário Europeu, auto-exilou-se...  Foi morar em Lanzarote, ilha vulcânica de terra preta, poucas árvores, muito mar... Um quase deserto silencioso e solarengo, onde o casal construiu a sua “A Casa”, nome colocado em azulejos no muro branco. "Resolvemos batizá-la assim, se calhar pela minha necessidade de espetar uma pequena bandeira portuguesa, foi a afirmação da minha origem", explicou o escritor em 1999.
            Em Lanzarote, ao lado da mulher que amava, e dos três cães vira-latas que entraram para a família - Pepe, Greta e Camões, o único que sobrevive e que tem este nome porque chegou precisamente no dia em que o escritor ganhou o Prêmio Camões - Saramago encontrou o seu lugar. "Como se este mar, estas paisagens me tivessem feito recuperar a antiga impressão de permanência (de lentidão pelo menos) que todos tivemos na infância, quando os dias e as estações pareciam não querer acabar. A cada momento, a razão diz-me que o tempo passa, e mais rápido agora do que nunca, mas, como fiz escrever na contracapa do livro [Cadernos de Lanzarote], conto os dias pelos dedos e encontro as mãos cheias. Este diário não é um sinal de guerra, mas de paz comigo mesmo.”            E comenta: "será Lanzarote, nesta altura da vida, a Azinhaga recuperada? Fazia questão de dizer, a cada entrevista, que, apesar da distância a sua pátria era ainda Portugal. Em 1998, após o Nobel, numa entrevista concedida a imprensa sueca afirmou: "Eu sou de onde sou. Sou de onde nasci, sou da língua que falo, sou da história que o meu país tem, sou das qualidades e dos defeitos que nós temos, sou dos sonhos e das ilusões que são nossos, ou foram ou vão ser. É daí que eu sou, é aí que eu pertenço. O que há na relação de Espanha comigo é uma grande generosidade. Eles receberam-me como se eu fosse um deles. A pátria é em Portugal, o lugar da raiz e da consciência. Mas eu tenho a sorte de ter uma espécie de país aumentado. Que se prolongou até esta ilha."
             É nesta amargura que é preciso procurar a explicação de seus azedumes em relação  a certas personalidades políticas e religiosas de seu país. Para aqueles que se mantinham em contacto com José Saramago, como eu, sabíamos que ele era de natureza ardente, sentia-se atormentado por tudo aquilo que, ao seu ver fosse tido como injustiça... No entanto, também sabíamos que ele, muitas vezes, fremia de alegria precisamente quando falava dos movimentos políticos de que ele fez parte em favor da liberdade, da democracia, da justiça social... Embora na polêmica, Saramago fosse extremamente contumaz! Como as alabardas de longas hastes usadas contra invasores de fortalezas na Idade Média, era cortante em suas críticas contra as instituições, fossem elas políticas ou religiosas. Mistura de lança e machado, a alabarda tanto servia para escalar muralhas como para “afundar as cabeças dos desafetos”. E Saramago fez isso nos livros e na vida!  Prova disso foi sua atuação no episódio em que o governo de Fidel Castro mandou executar, em 2003, três cubanos que sequestraram um barco e tentaram fugir para os EUA. Saramago condenou o regime castrista, dizendo que Cuba havia perdido a sua confiança e traído seus sonhos - o escritor era comunista e ateu -, mas, dois anos depois, voltou a elogiar Castro publicamente (Fidel e Raul mandaram coroas de flores no dia do seu funeral...) e condenar os EUA por sua "fisionomia fascista". Polêmico, ele provocou reações calorosas de Israel, em 2002, ao comparar o horror nazista no campo de Auschwitz à atuação dos militares israelenses na Cisjordânia, ocupada por Israel. No entanto, no dia da sua morte, o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura da Conferência Episcopal Portuguesa, padre José Tolentino, disse a um jornal luso que "a Igreja perde um crítico com o qual soube dialogar constantemente". Pode ser... Saramago estava sempre pronto a rever suas posições, mas nunca poupou críticas ao papa Bento XVI.
             Sua escalada social teve início pela literatura de outros autores. Autodidata, após publicar o primeiro romance, ‘Terra do Pecado’ (1947), começou a traduzir escritores como Tolstoi e Baudelaire, tendo sido influenciado especialmente pelo russo em sua defesa política dos menos favorecidos. A denúncia de injustiças sociais marcou até o fim sua carreira literária. "Não se trata de instruir, senão de educar", escreveu Saramago em seu livro recém-publicado, ‘Democracia e Universidade’, em que diz que a democracia está gravemente enferma e é preciso ensinar cidadania às crianças antes que seja tarde, justificando assim que os governos prestem mais atenção à educação primária do que à universitária. Seu livro ‘Caim’ (2009), reinvenção ácida do Antigo Testamento em que Deus aparece com letra minúscula entre vírgulas e mais vírgulas. Os protagonistas da história bíblica ganham novas personalidades no livro. A conclusão da história é pessimista: seríamos todos perversos caimitas, descendentes de um assassino de sangue ruim que, no epílogo, vocifera contra o Criador pedindo que o mate, o que não acontece. Eles continuam discutindo por toda a eternidade. Vem de ‘Memorial do Convento’ esse gosto pela alegoria que marcou tão profundamente a literatura de Saramago, agradando a seus leitores mais fiéis e desagradando a alguns críticos. Em ‘A Jangada de Pedra’ (1986), Portugal é a tal embarcação do título, vagando sem rumo pelo oceano. Em ‘Ensaio Sobre a Cegueira’ (1995), toda uma cidade fica cega às vésperas do fim do milênio, marcado pelo advento de uma espécie de mutação antropológica em que todos se curvam ao delírio consumista. Finalmente, em ‘A Viagem do Elefante’ (2008), um paquiderme nascido em Goa no século XVI é transportado pelos mares, chegando sujo, cansado e fedorento em terras portuguesas para cruzar a Espanha, a Itália e os Alpes até chegar a seu destino, a Áustria. A metáfora da experiência existencial humana aplicada ao elefante indiano era particularmente cara a Saramago no momento em que começou a escrever a história de A ‘Viagem do Elefante’. Foi exatamente há três anos que começaram seus problemas respiratórios e a epígrafe escolhida para o livro traduz sua pacificação com a morte: "Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam."
 Era conhecido por utilizar frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Os diálogos das personagens eram inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros: este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Muitas das suas frases (i.e. orações) ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais. Da mesma forma, muitos dos seus parágrafos ocupariam capítulos inteiros de outros autores. Apesar disso o seu estilo não torna a leitura mais difícil, os seus leitores habituam-se facilmente ao seu ritmo próprio. Para além do estilo rebuscado, algo barroco, de longos parágrafos, ele detestava ponto final!  Quem foi que colocou o ponto final em sua vida?  É uma noticia difícil de digerir... Saramago “estava e já não está”, como ele mesmo descreveu a morte. Que diremos agora? E a imortalidade de um gênio?  Só sei que nos sentimos mais sós, que ele nos fará muita falta...
João Portelinha, escritor

SARAMAGO ESTAVA E NÃO ESTÁ...



                     

José de Sousa (a que o funcionário do Registro Civil acrescentou Saramago, seu apelido), apareceu por lapso do funcionário do registro civil "que estava bêbado", conta ele próprio em “As Pequenas Memórias”.      Nascido numa família humilde de camponeses de Azinhaga, vilarejo da província portuguesa do Ribatejo, em 16 de novembro de 1922, embora dos registros conste a data de 18, para os pais evitarem o pagamento de uma multa por declaração fora do prazo. Não pôde freqüentar uma universidade, começando a vida como serralheiro mecânico.
            Tinha três anos quando sua família emigrou para a capital, onde as penúrias rurais apenas se transformaram em penúrias urbanas. Assim, o futuro escritor formou-se na biblioteca pública de seu bairro enquanto trabalhava numa oficina, após abandonar a escola para ajudar a manter uma casa na qual já faltava seu irmão Francisco, dois anos mais velho que foi morto logo depois da mudança.
           
A história de Saramago antes da consagração global é triste e é um registro da luta tenaz para sair dos limites impostos pela pobreza da infância. Mas, por isso mesmo, o escritor sempre se lembrou das suas raízes em todos os momentos importantes da sua vida - e, sobretudo, quando, a partir de certa altura, ele e a obra começaram a ser alvo de prêmios, homenagens e honrarias; fazia questão de lembrar sempre o quanto elas seriam fundamentais nas opções do homem em que se tornou. Fê-lo, por exemplo, em março de 2007, quando foi nomeado doutor honoris causa pela Universidade Autônoma de Madrid, ao apresentar-se assim: "Nasci numa família de camponeses muito pobres e sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilômetros a nordeste de Lisboa”... Em ‘As pequenas memórias’ é o título que Saramago pôs no relato de uma infância que sempre teve um pé na aldeia de onde havia emigrado. Seu romance ‘Levantado do Chão’ (1980) conta as peripécias de varias gerações de camponeses do Alentejo. Não foi seu primeiro romance, mas aquele que representou sua primeira consagração depois que ‘Manual de Pintura e Caligrafia’ rompera em 1977 um silêncio de quase 30 anos. Eram os anos que havia passado desde a aparição de ‘Terra do Pecado’, sua verdadeira, ainda que de pouco sucesso, estréia como romancista. Nessas três décadas Saramago trabalhou como administrador, empregado de seguradora e de uma editora; havia se casado e divorciado de sua primeira esposa, publicado três livros de poemas, ingressado no Partido Comunista - clandestino durante a ditadura de Salazar- e, acima de tudo, se consagrado como jornalista.
            O seu livro “O envagelho segundo Jesus Cristo” (1991) suscitou uma grande polêmica por nele o autor tentar humanizar a figura de Cristo como Pasolini fez em seu filme. Depois de saber que seu nome tinha sido riscado, pelo Governo português, da lista de candidatos ao Prêmio Literário Europeu, auto-exilou-se...  Foi morar em Lanzarote, ilha vulcânica de terra preta, poucas árvores, muito mar... Um quase deserto silencioso e solarengo, onde o casal construiu a sua “A Casa”, nome colocado em azulejos no muro branco. "Resolvemos batizá-la assim, se calhar pela minha necessidade de espetar uma pequena bandeira portuguesa, foi a afirmação da minha origem", explicou o escritor em 1999.
            Em Lanzarote, ao lado da mulher que amava, e dos três cães vira-latas que entraram para a família - Pepe, Greta e Camões, o único que sobrevive e que tem este nome porque chegou precisamente no dia em que o escritor ganhou o Prêmio Camões - Saramago encontrou o seu lugar. "Como se este mar, estas paisagens me tivessem feito recuperar a antiga impressão de permanência (de lentidão pelo menos) que todos tivemos na infância, quando os dias e as estações pareciam não querer acabar. A cada momento, a razão diz-me que o tempo passa, e mais rápido agora do que nunca, mas, como fiz escrever na contracapa do livro [Cadernos de Lanzarote], conto os dias pelos dedos e encontro as mãos cheias. Este diário não é um sinal de guerra, mas de paz comigo mesmo.”            E comenta: "será Lanzarote, nesta altura da vida, a Azinhaga recuperada? Fazia questão de dizer, a cada entrevista, que, apesar da distância a sua pátria era ainda Portugal. Em 1998, após o Nobel, numa entrevista concedida a imprensa sueca afirmou: "Eu sou de onde sou. Sou de onde nasci, sou da língua que falo, sou da história que o meu país tem, sou das qualidades e dos defeitos que nós temos, sou dos sonhos e das ilusões que são nossos, ou foram ou vão ser. É daí que eu sou, é aí que eu pertenço. O que há na relação de Espanha comigo é uma grande generosidade. Eles receberam-me como se eu fosse um deles. A pátria é em Portugal, o lugar da raiz e da consciência. Mas eu tenho a sorte de ter uma espécie de país aumentado. Que se prolongou até esta ilha."
             É nesta amargura que é preciso procurar a explicação de seus azedumes em relação  a certas personalidades políticas e religiosas de seu país. Para aqueles que se mantinham em contacto com José Saramago, como eu, sabíamos que ele era de natureza ardente, sentia-se atormentado por tudo aquilo que, ao seu ver fosse tido como injustiça... No entanto, também sabíamos que ele, muitas vezes, fremia de alegria precisamente quando falava dos movimentos políticos de que ele fez parte em favor da liberdade, da democracia, da justiça social... Embora na polêmica, Saramago fosse extremamente contumaz! Como as alabardas de longas hastes usadas contra invasores de fortalezas na Idade Média, era cortante em suas críticas contra as instituições, fossem elas políticas ou religiosas. Mistura de lança e machado, a alabarda tanto servia para escalar muralhas como para “afundar as cabeças dos desafetos”. E Saramago fez isso nos livros e na vida!  Prova disso foi sua atuação no episódio em que o governo de Fidel Castro mandou executar, em 2003, três cubanos que sequestraram um barco e tentaram fugir para os EUA. Saramago condenou o regime castrista, dizendo que Cuba havia perdido a sua confiança e traído seus sonhos - o escritor era comunista e ateu -, mas, dois anos depois, voltou a elogiar Castro publicamente (Fidel e Raul mandaram coroas de flores no dia do seu funeral...) e condenar os EUA por sua "fisionomia fascista". Polêmico, ele provocou reações calorosas de Israel, em 2002, ao comparar o horror nazista no campo de Auschwitz à atuação dos militares israelenses na Cisjordânia, ocupada por Israel. No entanto, no dia da sua morte, o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura da Conferência Episcopal Portuguesa, padre José Tolentino, disse a um jornal luso que "a Igreja perde um crítico com o qual soube dialogar constantemente". Pode ser... Saramago estava sempre pronto a rever suas posições, mas nunca poupou críticas ao papa Bento XVI.
             Sua escalada social teve início pela literatura de outros autores. Autodidata, após publicar o primeiro romance, ‘Terra do Pecado’ (1947), começou a traduzir escritores como Tolstoi e Baudelaire, tendo sido influenciado especialmente pelo russo em sua defesa política dos menos favorecidos. A denúncia de injustiças sociais marcou até o fim sua carreira literária. "Não se trata de instruir, senão de educar", escreveu Saramago em seu livro recém-publicado, ‘Democracia e Universidade’, em que diz que a democracia está gravemente enferma e é preciso ensinar cidadania às crianças antes que seja tarde, justificando assim que os governos prestem mais atenção à educação primária do que à universitária. Seu livro ‘Caim’ (2009), reinvenção ácida do Antigo Testamento em que Deus aparece com letra minúscula entre vírgulas e mais vírgulas. Os protagonistas da história bíblica ganham novas personalidades no livro. A conclusão da história é pessimista: seríamos todos perversos caimitas, descendentes de um assassino de sangue ruim que, no epílogo, vocifera contra o Criador pedindo que o mate, o que não acontece. Eles continuam discutindo por toda a eternidade. Vem de ‘Memorial do Convento’ esse gosto pela alegoria que marcou tão profundamente a literatura de Saramago, agradando a seus leitores mais fiéis e desagradando a alguns críticos. Em ‘A Jangada de Pedra’ (1986), Portugal é a tal embarcação do título, vagando sem rumo pelo oceano. Em ‘Ensaio Sobre a Cegueira’ (1995), toda uma cidade fica cega às vésperas do fim do milênio, marcado pelo advento de uma espécie de mutação antropológica em que todos se curvam ao delírio consumista. Finalmente, em ‘A Viagem do Elefante’ (2008), um paquiderme nascido em Goa no século XVI é transportado pelos mares, chegando sujo, cansado e fedorento em terras portuguesas para cruzar a Espanha, a Itália e os Alpes até chegar a seu destino, a Áustria. A metáfora da experiência existencial humana aplicada ao elefante indiano era particularmente cara a Saramago no momento em que começou a escrever a história de A ‘Viagem do Elefante’. Foi exatamente há três anos que começaram seus problemas respiratórios e a epígrafe escolhida para o livro traduz sua pacificação com a morte: "Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam."
 Era conhecido por utilizar frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional. Os diálogos das personagens eram inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros: este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir-se se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Muitas das suas frases (i.e. orações) ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais. Da mesma forma, muitos dos seus parágrafos ocupariam capítulos inteiros de outros autores. Apesar disso o seu estilo não torna a leitura mais difícil, os seus leitores habituam-se facilmente ao seu ritmo próprio. Para além do estilo rebuscado, algo barroco, de longos parágrafos, ele detestava ponto final!  Quem foi que colocou o ponto final em sua vida?  É uma noticia difícil de digerir... Saramago “estava e já não está”, como ele mesmo descreveu a morte. Que diremos agora? E a imortalidade de um gênio?  Só sei que nos sentimos mais sós, que ele nos fará muita falta...

João Portelinha, escritor


segunda-feira, 21 de junho de 2010

SARAMAGO

Associo-me ao profundo pesar, a enorme mágoa pelo falecimento do amigo e escritor José Saramago – espresso as minhas sentidas condolências à Pilar Del Rio, companheira das suas vicissitudes e sua família.
            A morte de um dos maiores expoentes da literatura portuguesa constitui uma perda irreparável para Portugal, para o espaço lusófono e para o mundo. Sua dimensão intelectual, artística, humana e cívica faz dele uma figura maior da nossa história. O nosso sentimento, também é de enorme gratidão por tudo que fez em prol da Democracia, Justiça Social, Direitos Humanos e, sobretudo, da Língua Portuguesa, nossa língua, que tornou-se mais bela com suas imortais obras. Rendo assim o meu testemunho a um escritor que pela reputação mundial recebe milhares de merecidas homenagens e eu quero acrescentar, neste doloroso momento do seu passamento, as minhas homenagens a todas aquelas que sua pátria e o mundo lhe consagram merecidamente. Estou  de luto...
 JOÃO PORTELINHA

domingo, 20 de junho de 2010

A MORTE DE SARAMAGO

Associo-me ao profundo pesar, a enorme mágoa pelo falecimento do escritor José Saramago, meu grande amigo e camarada – espresso, ainda, as mais sentidas condolências à Pilar Del Rio, companheira das suas vicissitudes e sua família.
            A morte de um dos maiores expoentes da literatura portuguesa constitui uma perda irreparável para Portugal, para o espaço lusófono e para o mundo. Sua dimensão intelectual, artística, humana e cívica faz dele uma figura maior da nossa história. O nosso sentimento, também é de enorme gratidão por tudo que fez em prol da Democracia, Justiça Social, Direitos Humanos e, sobretudo, da Língua Portuguesa, nossa língua, que tornou-se mais bela com suas imortais obras. Rendo assim o meu testemunho a um escritor que pela reputação mundial recebe milhares de merecidas homenagens e eu quero acrescentar, neste doloroso momento do seu passamento, as minhas condolências a todas aquelas que sua pátria e o mundo lhe consagram merecidamente. Eu estou de luto...

 João Portelinha

quinta-feira, 10 de junho de 2010

                         Como uma bola de neve...


            Neste dia 5 de junho, dia internacional do do meio ambiente, é importante fazermos uma reflexão sobre todas as metas intensivas e excessivas de desenvolvimento, onde o Homo Economicus não leva em conta a preservação do meio ambiente, provocando um efeito comparável ao de uma bola de neve que despenca e rola desatinamente do topo das montanhas cobertas de neve: ninguém pode prever qual a trajetória, a velocidade e o destino dessa bola que mais se avoluma e maior velocidade atinge na sua irreversível, insolente e trágica evolução.
         Assim é a natureza, que não se defende, mas reage, e cuja reação pode ter os desdobramentos os mais imprevisíveis – e os mais trágicos. No entanto, a idéia do progresso passou como é óbvio, a ser adorada, idolatrada e reverenciada por bilhões de devotos que, apesar do seu entusiasmo e por não terem sabido conviver com a natureza-mãe, tornaram-se, na realidade, mais vítimas do que beneficiários do implacável e desumano progresso, que altera todo o equilíbrio biológico ou ecológico de todas as espécies dos reinos animal e vegetal, provocando centenas de males incuráveis que afetam a saúde humana e a toda espécie animal, em nome de um suposto bem à humanidade.
         Sou apologista de que se deva procurar insumos e metodologias alternativas que sejam viáveis dos pontos de vista econômico, ambiental e social. Isto é, onde toda exploração agrícola ou agropecuária convergisse numa harmonia econômico-ambiental, em que o social fosse também importante – ou mesmo o mais importante nesse quadro. É sabido atualmente que os impactos da agricultura sobre o meio ambiente chegam a situações extremas e quase de irreversibilidade da degradação e da poluição ambiental, causadas pelo uso inapropriado de insumos e mecanização, noviços a toda vida.
         Deléage insistia frequentemente, e com justa ração, em que a questão ambiental era eminentemente social. Forçoso é estar de acordo, até porque os princípios do ecodesenvolvimento afastam toda abordagem reducionista, seja ela ecologista, seja ela economista. Dever-se-á pautar toda formulação de políticas de desenvolvimento agrícola ou de quaisquer outras atividades exploradas da natureza por princípios que conclamem a primazia das necessidades premente de um desenvolvimento social baseado nesse casamento frutuoso do homem com a natureza, já mesmo em benefício da qualidade de vida dos próprios viventes atuais.
         Por outro lado, este dilema entre a dominação da natureza pelo homem ou a preservação do meio ambiente permanecerá enquanto continuar a ser concebido o uso do meio ambiente pelo prisma de um modelo de desenvolvimento unilateral e unívoco. Após a leitura de várias teorias e modelos de desenvolvimento agrícola, ocorreu-me que talvez valesse a pena pensar em algum que fosse mais diversificado, o que supõe, desde logo, optar por uma orientação teórica capaz de perceber a complexidade dialética dos objetos e situações envolvidas nessa relação do meio natural com o meio social, reaprendendo mesmo tal relação.
         Um tal reaprendizado será necessariamente perpassada por conflitos e envolverá adaptação de tecnologias já existentes, desenvolvimento de novos hábitos e novas tecnologias, pesquisas de produtos e geração de novos conhecimentos direcionados para a previsão e a prevenção dos impactos negativos da atividade agrícola
(e não só ela), quer incidam eles sobre o meio ambiente, quer sobre o meio social.
         Obviamente que sem prejuízo para a produção nem para a competitividade, que são pressupostos para a sobrevivência da espécie e perpetuação da humanidade. Sendo assim, a política econômica deve levar ao desenvolvimento e à adoção de tecnologias que promovam o desenvolvimento sustentável, competitivo, procurando preservar sempre e dentro do possível os recursos naturais para o uso das gerações futuras.

In Palmensis Mirabilis de João Portelinha

quarta-feira, 2 de junho de 2010